Star Wars perdeu a Força

Star Wars perdeu a força? Como a marca pode recuperar a confiança dos fãs?

Star Wars perdeu, sim, muito da sua força. E não estamos falando da fonte do poder de Siths e Jedis, mas da força da marca. Se antes um novo conteúdo de Star Wars era sinônimo de fãs aguardando a estreia ansiosos, hoje até aquele fã que ia a uma estreia fazendo cosplay de um personagem pode estar considerando se o esforço vale a pena e se não é melhor esperar três meses para sair no streaming.

Por que a marca Star Wars perdeu a confiança do público?

Star Wars havia se tornado o que toda marca gostaria de ser. Mais do que consumidores, seguidores ou fãs, ela tinha torcedores, que investiam boa parte do seu tempo e do seu dinheiro com seus produtos, sendo capazes de discutir por horas o significado de uma cena ou da jornada de um personagem, além de defender a marca apaixonadamente se ela fosse criticada.

Quanto vale Star Wars

Definir o valor de um produto tão intangível quanto uma marca é sempre controverso, mas estima-se que, com as dezenas de indústrias que movimenta, Star Wars valha 30 bilhões, além dos 10 bilhões de dólares que já arrecadou em ingressos de cinema.

Mas sua grande força está na sua durabilidade. Afinal, quantos produtos lançados em 1977 conseguem permanecer tão relevantes na mente e no coração do público, que sempre esteve ansioso para comprar praticamente tudo o que carregasse o nome “Star Wars”?

Isso começou a mudar com os filmes produzidos pela Disney quando comprou a franquia do criador, George Lucas, em 2012: a chamada trilogia sequel, filmes que dividiram um público que antes era unânime em aplaudir Star Wars.

  • O Despertar da Força – The Force Awakens (2015)
    • Os Últimos Jedi – The Last Jedi (2017)
    • A Ascensão Skywalker – The Rise of Skywalker (2019)

A trilogia sequel foi alvo de machismo e preconceito?

Quando “O Despertar da Força” foi lançado, em 2015, a primeira reação foi de festa entre os fãs. Afinal, era Star Wars, com Mark Hamill, Harrison Ford e Carrie Fisher de volta aos seus papéis icônicos.

Mas logo começaram muitas críticas ao filme e às sequências. Em especial, à personagem Rey, interpretada por Daisy Ridley.

Seria tolice negar que alguns desses críticos poderiam, sim, ser pessoas que não aceitavam uma mulher como protagonista.

Mas como explicar que Rogue One: Uma História Star Wars, protagonizado por Felicity Jones no papel de Jyn Erso, fez sucesso quando foi lançado e até hoje é aclamado por essa mesma base de fãs?

Quem é o fã de Star Wars

O fã de Star Wars é mais do que um público pagante. É alguém que se sente tão dono da franquia quanto George Lucas ou a Disney, que assistiu à trilogia original dezenas de vezes e tem uma relação especial com a história, os personagens e o que eles significam.

Entregar para esse público uma história que mostra o que aconteceu com Luke Skywalker, Han Solo e Princesa Leia décadas depois de “O Retorno de Jedi” seria uma certeza de sucesso.

Foi algo que funcionou muito bem quando Sylvester Stallone trouxe de volta o boxeador Rocky Balboa, no filme com o mesmo nome, e na série Creed. Ou quando a Netflix trouxe os personagens de Karate Kid de volta na série Cobra Kai.

E esses dois produtos também trouxeram uma nova geração de fãs, que nem era nascida quando os originais foram lançados.

Mas por que os fãs de Rocky amam Rocky Balboa e Creed, os fãs de Karate Kid amam Cobra Kai, e uma parte tão grande do fanbase original de Star Wars rejeita as sequências feitas depois de 2015?

Os acertos e os erros

O grande acerto foi trazer de volta os personagens clássicos para passar o bastão para uma nova geração de protagonistas, já que o tempo havia passado.

Teria sido um acerto ainda maior se, da mesma maneira que nos cases que fizeram sucesso, esses personagens clássicos assumissem o papel de mestres para uma nova geração de protagonistas, que teriam toda a sua jornada de desenvolvimento e se conectariam com o público pela força de seu storytelling.

Entretanto, a narrativa, além de matar cada um dos personagens clássicos ao longo de cada um dos filmes da trilogia sequel, frustrando o público que esperou 30 anos para vê-los novamente nas telas, apostou na sua desconstrução.

Para piorar, trouxeram de volta o grande vilão da trilogia clássica, o Imperador Palpatine, que Anakin Skywalker, o Darth Vader, se sacrifica para destruir no final de “O Retorno de Jedi”, salvando seu próprio filho, com quem tinha uma relação, no mínimo, “complicada”.

Uma das coisas que torna Star Wars tão especial para tantas pessoas é que, ao mesmo tempo em que é entretenimento despretensioso da melhor qualidade, também permite uma leitura mais aprofundada.

Há quem veja no arco de Anakin Skywalker uma metáfora de vida. Quantas pessoas não estariam dispostas a tudo para corrigir os maiores erros de seu passado? E todos nós os temos.

Há quem identifique, ainda, na história de nascimento como o escolhido, tentação, corrupção, redenção e sacrifício final de Anakin referências às histórias bíblicas, como as de Adão e sua expulsão do Paraíso, e até de Jesus Cristo.

O problema da desconstrução

As razões pelas quais essa desconstrução ocorreu frequentemente são interpretadas sob o prisma da polarização política, o que pode ser negativo para qualquer marca, porque leva a análises em que a qualidade de um produto ou de uma marca é analisada mais pelo “lado” que ela supostamente assumiu do que pela sua qualidade em si.

E mesmo para uma marca sobre a qual as expectativas são altíssimas e a tolerância com os erros é baixa, como Star Wars, é possível surpreender o público. Por exemplo, hoje o fato de Luke e Leia serem irmãos, e de Darth Vader ser o pai dos dois, é um dos pontos mais interessantes, mas surpreendeu o público na época.

Só que as pessoas se acostumaram, da mesma maneira que a trilogia prequel, que conta a origem de Anakin Skywalker e sua transformação em Darth Vader, teve muitos pontos que os fãs consideraram erros narrativos, e talvez sejam mesmo. Mas que hoje, se não foram plenamente aceitos, ao menos foram superados, inclusive porque George Lucas sutilmente removia dos filmes seguintes aquilo que os fãs não tinham gostado.

Conteúdo qualifica o público

Independentemente da razão pela qual a trilogia sequel e algumas séries feitas pela Disney tenham sido concebidas como foram, o fato é que conteúdo qualifica o público. Se uma parte gostou, outra se sentiu alienada e perdeu a confiança na marca.

Quanto custa um filme de Star Wars e por que isso importa

Um filme de Star Wars custa entre 400 e 500 milhões de dólares e precisa alcançar bilheterias de 1 bilhão de dólares mundialmente para justificar o investimento.

Isso significa que ele precisa ser bem aceito pelo público mais amplo possível, vender os ingressos de cinema necessários para isso e também impulsionar as vendas que dependem do sucesso desse conteúdo, como brinquedos, camisetas, ingressos de parques temáticos, games e assinaturas de streaming.

Quando o conteúdo, no caso o filme de Star Wars, começa a agradar somente a um grupo específico, ele deixa de ser um produto de massa para se tornar um produto de nicho. E nichos, por definição, são públicos menores.

Opinião de uma bolha?

Os defensores da trilogia sequel afirmam que essas críticas se resumem a uma bolha de fãs radicais e que todos os filmes da trilogia sequel deram lucro. Por outro lado, é razoável ponderar que, com a força que a marca Star Wars tem com o seu público, qualquer produto daria lucro, e que a sequência de decisões criativas questionáveis tornou a marca muito mais fraca do que era antes de 2015.

Não brigue com os números

Essa discussão tinha tudo para durar eternamente, mas um levantamento divulgado pela Nielsen no dia 4 de maio, o “May the Fourth Be With You”, mostrou que, em 2025, os fãs de Star Wars assistiram a 33 bilhões de minutos da franquia, mostrando que a marca ainda tem “a Força”, mas ela está concentrada no passado.

Analisando todos os conteúdos, que incluem animações e séries, os 3 filmes da trilogia sequel não aparecem entre os 10 mais assistidos. E, se pegarmos somente os 10 filmes mais assistidos, eles estão em último lugar.

Ou seja, os filmes da trilogia sequel deram lucro de bilheteria porque a marca é muito forte. Mas, se a trilogia original ainda tem força entre os fãs quase 50 anos após seus lançamentos, a trilogia sequel não possui a mesma força. Muito pelo contrário, aliás.

Uma oportunidade para recuperar a força

Essa é a situação de risco em que Star Wars se colocou.

Mas sua oportunidade para recuperar a força é “O Mandaloriano e Grogu” ser bem-sucedido. Eles são personagens queridos pelo público, mas não carregam uma aura tão intocável quanto Luke Skywalker, Han Solo e Princesa Leia, permitindo um pouco mais de liberdade criativa.

Se a Disney acertar o tom e não cometer os mesmos erros que cometeu na trilogia sequel, o filme tem tudo para ser um sucesso, alcançando a bilheteria de 1 bilhão de dólares que o mercado espera de Star Wars e provando que o público está disposto a pagar ingressos por novos conteúdos da marca, se eles forem bons.

Uma nova esperança para Star Wars?

Esse seria um cenário ideal para fazer o que muitos fãs mais ardorosos da franquia pedem há anos: que a trilogia sequel seja colocada fora do cânone, ou seja, da cronologia oficial, e que a história de Luke Skywalker, Princesa Leia, Han Solo, Chewbacca e Lando Calrissian seja novamente contada a partir de onde parou em “O Retorno de Jedi”.

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